Livro: Perto do coração selvagem
Autores(as): Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 204
Nota: 5/5 (ótimo)
Editora: Rocco
Páginas: 204
Nota: 5/5 (ótimo)

"Você sabe que eu não minto, que nunca minto, mesmo quando... mesmo sempre? Sente? Diga, diga. O resto então não importaria... Quando digo essas coisas... essas coisas loucas, quando não quero saber de ser passado e não quero contar sobre mim, quando eu invento palavras... Quando eu minto você sente que eu não minto?"
Clarice Lispector é uma autora cuja popularidade tem crescido bastante e uma das facetas desta expansão está intrinsecamente relacionada ao mundo digital e às redes sociais: de repente, uma multidão de [supostos] leitores de Clarice invadiu a rede e passou a postar, quase como num exercício diário, frases e mais frases de [também suposta] autoria da escritora.
A obra da autora, no entanto, é muito extensa, intensa, densa e tensa, (já que é para abusar das aliterações e assonâncias), para ser resumida à pequenas citações, que muitas vezes nem foram entendidas verdadeiramente.
"Perto do coração selvagem", primeiro romance de Lispector, é arrebatador: a falta de linearidade (isto é, os acontecimentos que não podem ser enquadrados em uma ordem lógica); o conhecimento da consciência dos personagens através de um narrador em 3ª pessoa que, vez em quando, se dilui, originando um discurso em 1ª pessoa; e a diluição das referências temporais e espaciais (há marcos como a infância, que podem ser identificados, mas não existe nenhum tipo de definição temporal), entre outros elementos da obra trazem a premissa de que só existe realidade como sensação do sujeito.
Joana, a protagonista, vive constantemente a tensão entre a sua realidade interna e a realidade externa.
"Perco a consciência, mas não importa, encontro a serenidade na alucinação."
Ao percorrer a obra, percebe-se que a solidão torna-se a própria essência da personagem, ocasionando a fragmentação da mesma, propiciada também pela ausência de retrato dos personagens, isto é, por não existir uma consciência representativa do sujeito e, por isso, (por não ser uno), ele se fragmenta.
"- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
- Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta em outras palavras.
- Ser feliz é para conseguir o quê?"
Leitura recomendadíssima!












