Livro: Ligue os pontos - poemas de amor e big bang

Autor: Gregório Duvivier
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 85
Nota: 4/5 



"antes de eu nascer o mundo era uma foto desbotada
dos meus pais à beira da piscina
esperando que algo fantástico acontecesse (eu).

depois que eu morrer espero que vocês tenham
a decência de retomar esse marasmo."

Na contramão do que costumo fazer, isto é, resenhar obras já consagradas ou canônicas, hoje escolhi uma obra bastante recente e que, logo na primeira leitura, me conquistou: "Ligue os pontos - poemas de amor e big bang". Este é o segundo livro de Gregório Duvivier, que se destaca também como humorista, no canal Porta dos Fundos, e como colunista da Folha de São Paulo.
Gregório alcançou nesta obra um difícil equilíbrio entre a melancolia e a animação. Trata-se de um misto de sentimentos que, apesar de suas essências diversas, comungam-se em versos livres e libertadores, além de incrivelmente fortes.
Confesso que fui surpreendida pela obra, que, ao mesmo tempo, tão simples e tão densa, deixa um gostinho de quero mais. Uma celebração pura do amor se desenrola ao longo das páginas, dando espaço também a várias facetas do existir humano: família, saudades, vida urbana, sociedade...

"o mês de agosto parece o bairro
de são conrado. é difícil atravessá-lo
às vezes demora meses sobretudo
quando chova mas é inevitável
passar por ele -  é inevitável"

Um daqueles livros que poderiam ser lidos em pouco tempo, quiça em uma hora, mas que acabam sendo o preferido de todos os dias, sempre sendo relido, e, a cada vez, de maneira mais satisfatória.


"se eu fosse um faraó do egito antigo
não me faria falta o carnaval do rio
o ipod o iphone o iogurte grego
o mate de galão ou o miojo
de galinha caipira eu viveria feliz
por meses entre múmias e deuses
com cara de cachorro — ou quase:
a única invenção cuja inexistência
me obrigaria a tomar o cianureto
mais em voga das maravilhas do mundo
moderno a única que me faria falta
é você (e talvez quem sabe o ar
condicionado, mas sobretudo você)."


Livro: Perto do coração selvagem

Autores(as): Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 204
Nota: 5/5 (ótimo)


"Você sabe que eu não minto, que nunca minto, mesmo quando... mesmo sempre? Sente? Diga, diga. O resto então não importaria... Quando digo essas coisas... essas coisas loucas, quando não quero saber de ser passado e não quero contar sobre mim, quando eu invento palavras... Quando eu minto você sente que eu não minto?"

Clarice Lispector é uma autora cuja popularidade tem crescido bastante e uma das facetas desta expansão está intrinsecamente relacionada ao mundo digital e às redes sociais: de repente, uma multidão de [supostos] leitores de Clarice invadiu a rede e passou a postar, quase como num exercício diário, frases e mais frases de [também suposta] autoria da escritora.
A obra da autora, no entanto, é muito extensa, intensa, densa e tensa, (já que é para abusar das aliterações e assonâncias), para ser resumida à pequenas citações, que muitas vezes nem foram entendidas verdadeiramente.
"Perto do coração selvagem", primeiro romance de Lispector, é arrebatador: a falta de linearidade (isto é, os acontecimentos que não podem ser enquadrados em uma ordem lógica); o conhecimento da consciência dos personagens através de um narrador em 3ª pessoa que, vez em quando, se dilui, originando um discurso em 1ª pessoa; e a diluição das referências temporais e espaciais (há marcos como a infância, que podem ser identificados, mas não existe nenhum tipo de definição temporal), entre outros elementos da obra trazem a premissa de que só existe realidade como sensação do sujeito.

Joana, a protagonista, vive constantemente a tensão entre a sua realidade interna e a realidade externa.

"Perco a consciência, mas não importa, encontro a serenidade na alucinação."

Ao percorrer a obra, percebe-se que a solidão torna-se a própria essência da personagem, ocasionando a fragmentação da mesma, propiciada também pela ausência de retrato dos personagens, isto é, por não existir uma consciência representativa do sujeito e, por isso, (por não ser uno), ele se fragmenta.

"- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
- Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta em outras palavras.
- Ser feliz é para conseguir o quê?"



Leitura recomendadíssima!


Muitos já devem estar de férias ou prestes a entrar nesse período maravilhoso do ano, como sempre, fiz uma listinha de livros que pretendo ler nesse momento. Mas hoje tô aqui pra indicar meus livros favoritos, espero que gostem e boa leitura.



Uma vida interrompida - esse é o livro que deu origem ao filme Um olhar do paraíso, narra a morte de Susie Salmon. De uma hora para outra ela se vê fora de sua vida, deixando sua irmã, seu irmão, seus pais, sua avó, suas amigas e seu quase-futuro-namorado para trás. No outro plano, ela conhece algumas meninas que também foram mortas pela mesma pessoa que ela e observa de longe tudo o que acontece devido sua morte. A busca por resposta de seu pai, a mudança de comportamento de sua irmã, as atitudes de sua mãe. Vibra a cada pista e ponta de esperança que surge no decorrer da história, emociona por não poder "se comunicar" com as pessoas e a cada dia sente mais raiva do cinismo de seu assassino. Sem dúvida nenhuma, é o livro mais emocionante que já li. 

Serial Killers - apesar de ser um tanto quanto forte, mostra um universo incrível. Possuí a ficha dos maiores serial killers do mundo, contendo a possível probabilidade de ele ter se tornado assim, suas principais vitimas, como foram descobertos e qual foi seu fim. Não há muito o que falar, a única coisa que posso afirmar é que ainda estou em êxtase com o livro.

Feita de fumaça e osso - fiquei tão apaixonada por esse livro que mesmo morrendo de ciumes dele, emprestei pra minha amiga. Narra a história de Karou um jovem nada comum, ela é artista e pasmem, tem o cabelo azul natural. Não se lembra de suas família, mora com quimeras (uma espécie de diabo) e é capaz de atravessar portais. Em sua jornada ela enfrenta vários desafios e conhece um serafim, juntos eles descobrem a verdade sobre sua origem.

O guia mochileiro das galaxias - com toda certeza do mundo é minha saga, ou trilogia de cinco como o autor costuma dizer, favorita. Há resenha aqui.

Malas, Memórias e Marshmallows - Após ser demitida exatamente no dia do seu aniversário, Melissa pensa estar passando por onda de azar, mas mal ela sabe que está no momento de mais sorte de sua vida. Por intermédio de um vizinho - que ela acaba de conhecer, praticamente - viaja para os Estados Unidos como mochileira. Lá ela conhece uma cultura incrível, se esforça o máximo possível para aprender inglês, se apaixona, se decepciona e descobre quem realmente é o amor de sua vida.

Vocês têm alguma recomendação para mim? Já leram algum dos livros aqui citados?